terça-feira

Escrever, escrever, escrever...

Durante toda a produção de um filme, seja curta ou longa metragem, o guião é talvez, o elemento que mais mudanças sofre ao longo do tempo. Até ao final de toda a produção, nunca se sabe o que vai acontecer a este elemento...chegando ao ponto de dar vontade de o comer vivo!

Bem, deixo aqui a primeira versão do guião de "INADAPTADO", este que iria sofrer muitas mudanças ao longo do tempo...


INADAPTADO
por
Produções Tardo



INT. HIPERMERCADO – AMANHECER

No corredor central do hipermercado – completamente deserto – Adolfo Amaral passa a esfregona numa poça de água. Chega a hora de abertura do hiper e o silêncio confortável dá lugar à algazarra desconcertante dos caixas que se instalam no seu local de trabalho, trocando palavras imperceptíveis, risos, gargalhadas. Adolfo espreme a esfregona para dentro do balde pela última vez, olha para o relógio na parede do hipermercado, pega no balde e vai embora.


INT. CASA ADOLFO AMARAL – DIA

Adolfo Amaral chega a casa, um lugar mais comparável a uma caverna que a um lar.


INT. COZINHA – DIA

Mesa para dois com um só prato, um só copo, uma faca, um garfo e um guardanapo. De um lado Adolfo, do outro um espelho com o seu reflexo.


INT. SALA – DIA

Adolfo está na sala a regar as plantas. A única decoração da sala são vasos e floreiras que acomodam plantas de interior. Entre as plantas está uma pequena mesa rectangular de pés curtos com uma velha televisão que de nome já só tem mesmo a aparência, o interior desapareceu. A televisão está ligada à corrente que alimenta uma lâmpada colocada no tecto do aparelho. Debaixo de si a luz ilumina o rebento seco de um feto plantado num pequeno vaso cheio de terra que as raízes da planta dominaram e consumiram até à sua total infertilidade. Adolfo detém-se especialmente naquele feto regando-o. Passa levemente o dedo sobre o pau curvo da planta e, sem querer, parte-o destruindo o pouco que ainda restava. Adolfo olha para o relógio de pêndulo pendurado na parede da sala, atrás da televisão, e sai de casa.


EXT. ENTRADA DO TEATRO – DIA

Adolfo caminha pela rua até chegar ao teatro.


INT. SALA DE TEATRO – DIA

Adolfo entra na sala de teatro e senta-se na parte central dos lugares da plateia – onde é a única audiência do ensaio de uma peça de teatro. As pálpebras descem-lhe lentamente sobre os olhos e adormece sentado na cadeira.


INT. SALA DE TEATRO/PALCO – DIA

A sala está completamente escura, não se vê um raio de luz. Com um estrondo, as luzes superiores do palco acendem iluminando a longa cortina vermelha que se estende desde o tecto até ao chão do palco. Começa a tocar a introdução da música “Hit The Road Jack” à medida que a cortina vai subindo e revelando um background preto com cinco personagens em palco: à esquerda um sofá vermelho com uma FEMME FATALE de longo vestido preto recostada enquanto fuma por uma boquilha; atrás do sofá estão TRÊS CORISTAS, de pé, em lingerie preta; do lado direito está um HOMEM DE CHAPÉU, usando um fato modesto, colarinho desabotoado, com uma mala de viagem na mão e mais ao fundo uma porta falsa com a palavra “MORTE” escrita em néon azul com luzinhas amarelas e laranja a piscar em volta. Sobem ao palco três trompetistas a acompanhar a música, vestidos à Blues Brothers, e colocam-se ao lado uns dos outros na direcção da porta como se fossem trompetistas reais a abrir alas ao rei para o palácio. As TRÊS CORISTAS abanam-se e estalam os dedos ao som da música dando início ao diálogo musical:

TRÊS CORISTAS
Hit the road Jack and don't you come back no more, no more, no more, no more. Hit the road Jack and don't you come back no more.

O HOMEM DE CHAPÉU mostra-se surpreendido com a frieza e arrogância daquelas palavras.

HOMEM DE CHAPÉU
What you say?

TRÊS CORISTAS
Hit the road Jack and don't you come back no more, no more, no more, no more. Hit the road Jack and don't you come back no more.

Apercebendo-se da gravidade da situação, o HOMEM DE CHAPÉU implora à FEMME FATALE e às suas TRÊS CORISTAS que o poupem, como se o seu destino estivesse nas mãos delas.

HOMEM DE CHAPÉU
Oh woman, oh woman, don't treat me so mean, you're the meanest old woman that I've ever seen. I guess if you say so
I'll have to pack my things and go.

Este acto não demove aquelas mulheres cruéis de forma alguma. O HOMEM DE CHAPÉU consegue ouvir as gargalhadas histéricas, patéticas, impiedosas do público que, atrás de si, assiste entretido ao desenrolar da peça.

TRÊS CORISTAS
That’s right! Hit the road Jack and don’t you come back no more, no more, no more, no more. Hit the road Jack and don't you come back no more.

HOMEM DE CHAPÉU
Now baby, listen baby, don't ya treat me this-a way. Girl, I'll be back on my feet some day.

A FEMME FATALE dá a sentença final.

FEMME FATALE
Don’t care if you do, ‘cause it’s understood, you ain’t got no money you just ain’t no good.

Vendo-se sem mais saída, o HOMEM DO CHAPÉU não tem outra sorte senão conformar-se com o que lhe foi destinado.

HOMEM DE CHAPÉU
Well, I guess if you say so, I'll have to pack my things and go.

TRÊS CORISTAS
That’s right! Hit the road Jack and don’t you come back no more, no more, no more, no more. Hit the road Jack and don't you come back no more.

A FEMME FATALE sopra o fumo do cigarro sempre muito segura de si enquanto, ao som de fundo das TRÊS CORISTAS a cantar, o HOMEM DO CHAPÉU, cabisbaixo, hit the road para a porta da “MORTE”. O público aplaude completamente extasiado como se num coliseu da Era do Império Romano. A música e o barulho de fundo desvanecem enquanto a cortina volta a descer lentamente sobre o palco e a sala escurece.


INT. SALA DE TEATRO – TARDE

Adolfo acorda com um estoirar de pratos atrás de si, mas quando olha não há lá nada nem ninguém. O ensaio tinha acabado, o palco e a sala estavam vazios.


EXT. RUA – TARDE

Lá fora cai neve e o vento não perdoa. Adolfo percorre uma rua recta da cidade, aconchegando o sobretudo ao corpo enregelado. A cidade está desorientada, as pessoas tropeçam umas nas outras, os carros buzinam, ouvem-se vozes exaltadas. Adolfo leva um encontrão de um rapaz que segue na direcção oposta e que na t-shirt tem escrito “Pastelaria Felicidade”. Uma senhora passa com três cães presos por uma trela que ladram raivosamente a Adolfo. Um HOMEM PERDIDO corre agarrando cada pessoa que vê proferindo-lhes qualquer coisa. Agarra Adolfo. Os dedos ósseos e esguios do HOMEM PERDIDO perfuram-no e os olhos vermelhos parecem querer saltar-lhe das órbitas para lhe ler a mente.

HOMEM PERDIDO
Você conhece-me?

Perante a mudez da resposta que ele queria impacientemente, o HOMEM PERDIDO deixa Adolfo e procura outros transeuntes que lhe possam dar uma resposta pronta e esclarecedora. Adolfo arregaça a manga do casaco e olha o tempo cristalizado pela neve gélida no vidro do seu relógio de pulso.

EXT. RUA/EQUIPA TÉCNICA – TARDE

O absurdo daquele aparato é tal que até a equipa de rodagem do filme se vê metida na acção do caos quando o HOMEM PERDIDO tropeça nos cabos da câmara de filmar e o cameraman fica sem imagem. O único registo do que se passa durante o momento em que a imagem falha é o som que continua a ser gravado pela perche. A falha é revolvida e a imagem volta mas a equipa já tem aquelas filmagens arruinadas e todos andam de um lado para o outro à frente da câmara com cabos, projectores, planos de rodagem, gritando ordens numa total falta de controlo sobre aquele imprevisto. Por entre isto consegue ver-se ao longe a figura de Adolfo, enfiado no sobretudo até à cabeça, que seguiu viagem alheio àquela confusão.


FIM

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